Hidoyatullo Shozodamamadov é natural de Badakhshan, no Tajiquistão. Concluiu o Programa de Pós-Graduação em Estudos Islâmicos e Humanidades (GPISH) no Instituto de Estudos Ismailis (IIS), tendo posteriormente obtido outro mestrado na mesma área na . Atualmente, está a realizar um estágio na Unidade de Estudos Qur'rânicos do IIS.
Nestas reflexões pessoais, escritas durante uma visita ao Cairo, Hidoyatullo descreve os sentimentos suscitados pela transformação de um único local ao longo de mil anos. A sua viagem percorre o tempo e o espaço, desde os túmulos dos Imams-califas Fatimidas até a um mercado mameluco, passando por um monte de lixo esquecido e, finalmente, pelos jardins do Parque al-Azhar. Baseando-se no historiador medieval al-Maqrizi (m. 1442 E.C.) e no próprio encontro de Hidoyatullo com a cidade, ele reflete sobre como um lugar pode ser destruído e, séculos mais tarde, transformado, mantendo, no entanto, um fio de ligação espiritual.
Uma viagem de táxi até ao Cairo Fatimida
On my first day in Cairo, as I stepped out of the airport, I was greeted by a taxi driver who was very enthusiastic to tell me all about the city’s attractions. As he drove, he pointed to a place and insisted that it was one spot I simply couldn’t miss. It was Khan al-Khalili, the historical bazaar in ‘Fatimid’ Cairo. I smiled at his suggestion while lost in my thoughts, imagining myself setting foot upon grounds that had once been the resting place of the Imams. Today it is a thriving commercial district, but once Khan al-Khalili told a very different story.
O relato de al-Maqrizi sobre o cemitério dos Imams-califas fatimidas
Os túmulos dos Imams-califas fatimidas já me interessavam há muito tempo, enquanto estudante do GPISH, mesmo antes de ter tido a oportunidade de visitar o Cairo. Um dia, enquanto lia a obra histórica do século XV de al-Maqrizi, al-Mawaʿiz wa’l-iʿtibar, deparei-me com uma história trágica. Al-Maqrizi escreve que o cemitério real dos Fatimidas, conhecido como Turbat al-Zaʿfaran (O Cemitério do Açafrão), tinha sobrevivido durante dois séculos após a queda do seu califado. No entanto, durante o primeiro reinado do sultão Barquq (r. 1382-1389), um emir mameluco chamado Jaharkas al-Khalili destruiu o cemitério histórico e construiu um grande mercado no local. No momento em que o taxista mencionou o nome do bazar, lembrei-me imediatamente do relato de al-Maqrizi:
Part of the Great Palace was al-Turba al-Muʿizziyya, where [the Imam-caliph] al-Muʿizz li-Din Allah buried his forefathers, whose bodies he had brought with him in coffins from the Maghrib.
Estes [antepassados] foram o Imam al-Mahdi ʿUbayd Allah Muhammad, o seu filho al-Qaʾim bi-Amr Allah Muhammad e o filho deste, o Imam al-Mansur bi Nasr Allah Ismaʿil. O local acabou por tornar-se no cemitério permanente dos califas, dos seus filhos e das suas esposas, tendo ficado conhecido como Turbat al-Zaʿfaran. O cemitério tinha os seus próprios rituais e costumes, entre os quais se contava o facto de o califa entrar sempre na cidade passando por este cemitério para prestar homenagem aos seus antepassados, sempre que regressava ao seu palácio após uma excursão… Quando o emir Jarkas al-Khalili construiu o seu khan na mesma estrada, os ossos (dos califas fatimidas) foram exumados e abandonados entre o lixo e os escombros em Kiman al-Barqiyya (os Outeiros de Barqiyya).
(al-Maqrizi, al-Mawaʿiz wa’l-iʿtibar, p. 407)
Enquanto traduzia a passagem, o nome dos montes de lixo "Kiman al-Barqiyya" não me dizia nada, a não ser que me trazia à memória o famoso portão do Cairo, Bab al-Barqiyya. No entanto, pouco depois, um amigo partilhou comigo um artigo do blogue de Shehab Ismail, um historiador do Médio Oriente moderno, intitulado "Os Depósitos de Lixo Históricos do Cairo", no qual ele narra como se deparou com esses montes de lixo durante a sua investigação sobre a história do saneamento na cidade. Kiman al-Barqiyya, um dos maiores depósitos de lixo históricos do Cairo, foi o principal foco da sua investigação.
Shehab Ismail escreve:
No início do século XX, os outeiros de al-Barqiya tinham atingido uma altura de quarenta e dois metros, bem acima dos edifícios situados no lado oposto da muralha da cidade. Até ao final do século, o governo removeu muitos dos outeiros a oriente e o Fundo Aga Khan para a Cultura transformou a parte restante no Parque al-Azhar.
Fiquei profundamente comovido ao saber que o Turbat al-Zaʿfaran, outrora local de descanso dos Fatimidas, foi demolido pelo emir mameluco para dar lugar ao Khan al-Khalili, tendo os restos mortais sido lançados para os outeeiros de al-Barqiyya. Séculos mais tarde, parte desses outeiros foi transformada por um descendente dos Imams fatimidas, Sua Alteza o Aga Khan IV, já falecido, no parque mais bonito e popular do Cairo.
Da ruína à renovação
Embora seja necessário aprofundar a investigação para determinar até que ponto o relato de al-Maqrizi é fiável, a campanha para destruir os locais religiosos associados aos fatimidas foi uma realidade histórica documentada. Esta teve início depois de Salah al-Din al-Ayyubi (m. 1193 d.C.) ter tomado o controlo do Egito, retirando-o à dinastia fatimida em 1171, e prolongou-se até ao período mameluco, séculos mais tarde.
Assim, embora o relato de al-Maqrizi descrevesse os esforços envidados para apagar os nomes daqueles cujas contribuições para a civilização islâmica incluíram a fundação do próprio Cairo e a criação de al-Azhar, uma das mais antigas instituições de ensino do mundo islâmico, a minha própria compreensão revelou um lado muito diferente da história. Apesar de os Imams terem sido obrigados a abandonar o Egito e de os restos mortais dos seus antepassados terem sido postos de lado, pude constatar que o seu amor e dedicação à terra nunca tinham diminuído. Era como se o seu espírito tivesse continuado a velar por ela até que fosse criada uma nova al-Azhar, radiante e bela — desta vez, não uma mesquita ou universidade, mas um dos parques públicos mais notáveis do mundo.
Para mais informações sobre a renovação do Cairo histórico levada a cabo pelo AKTC, .